quarta-feira, 12 de maio de 2010
A parte funda
Alguns tem um sério problema: não se contentam.
Vivem me chamando atenção pelo meu all star rasgado, minha meia furada, minhas unhas roídas. Meu cabelo bagunçado, minha cara amassada e minhas roupas aleatórias.
Eu tenho um sério problema: não me contento.
Está longe de me chamar a atenção um vestidinho florido, um cabelinho arrumado e uma maquiagem bem feita. Não estou nem aí pro teu sapato lustrado, tuas calças de marca e teus óculos importados.
Tudo isso pra mim é superfície.
Mas eu sempre gostei da parte funda.
Por debaixo destes trapos existe um corpo quente. Que incendeia. Perfeitamente capaz de causar queimaduras de terceiro grau: daquelas que penetram a carne.
Por trás dos meus óculos baratos se esconde um par de olhos que almoça, janta e faz questão de sobremesa: olhos castanhos que devoram. Engolem. Sugam. Absorvem.
Por dentro de meus tênis, debaixo dos furos de minhas meias, existem os meus passos. Passos. É dali que vem o meu movimento. São com eles que eu sigo em frente.
Nunca fui aparência, máscaras não cabem em meu rosto, minha alma é profunda demais para camuflagens. Gosto de brincar com o superficial, distraindo os alheios para que evitem se aproximar da minha complexidade. Sou um buraco no fundo do mar, são poucos que suportam a pressão ao tentar mergulhar dentro de mim.
Perguntaram-me um dia por que eu não experimento ser gente de verdade, ao menos uma vez.
"Mas eu sou de verdade. Só não sou gente."
domingo, 2 de maio de 2010
À Vida
Digo olá à vida
Olá, Vida!
Tu és, do preto e branco,
A parte colorida
Pergunto como à vida
Como, Vida?
Ainda posso ser feliz
Se vivo tempos de ferida
Agradeço à vida
Obrigada, Vida
Em meio a todo esse caos
Ainda me sinto protegida
Desabafo com a vida,
É tão difícil, Vida
Mas por mais que a dor corte
Mantém a força entretida
Divido com a vida,
Mas não espalhes, Vida
Em meio à tantas folhas secas
Eu me sinto margarida
Prometo à vida
Eu prometo, Vida
Coração dilacerado
Mas fé inatingida
Confesso à vida,
Eu te confesso, Vida
Tu és, das lições,
A minha preferida.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Ame!
Amar é tão gostoso! Como é pura a felicidade que vem do sorriso do outro, do brilho dos olhos, gosto da boca, calor dos abraços... A dor de um amor finito é penetrante, machuca até o fundo de nossa alma, mas faz com que nos sintamos completamente humanos.
Quando a pureza nos dá intervalo, os dias ficam cinzas... enxergamos a poluição, os acidentes, as traições e a elevação das taxas de juros.
Mas quando o amor nos invade, ah! Que delícia... O céu nunca esteve mais azul, o mundo mais colorido, as pessoas nunca pareceram tão doces e simpáticas. O café aumentou um pouquinho, mas sei como meu amor gosta de uma xícara quentinha pela manhã, e por ele faço qualquer sacrifício.
Aqui fica um conselho: ame.
E não apenas isso.
Entregue-se.
Quê importa quantas vezes o seu coração já foi partido, quando ele está sempre pronto para amar de novo? Se o sentimento foi dilacerante, significa que foi também sincero. Quem ama de verdade, sofre de verdade. Leve a dor como a prova da entrega. Sinta orgulho do mal que ela o faz. Quando estiver desacreditado, decepcionado e preocupado com a expansão do capitalismo, lembre-se: você um dia amou.
E essa é a maior prova de que, em breve, o sol voltará a brilhar de maneira encantadora.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Registrado
"Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba não"
Em meio a maré de tranquilidade que vivo, as palavras parecem apostar corrida comigo: ou eu as registro no exato momento em que vêm à tona, ou elas fogem imediatamente. Porém, de alguma forma, sinto que esse pique-pega acabará me ensinando mais do que posso imaginar.
Tudo que vive aqui dentro é tão complexo que, de vez em quando, fica difícil botar pra fora. Quando o faço, a velocidade com a qual a bomba explode é tão grande que nem eu consigo juntar os cacos, a fim de formar qualquer coisa que faça sentido. Os movimentos cotidianos de meu corpo, como o piscar de olhos, o esvoaçar de cabelos e o pisar de meus pés,são mais inteiros e completos do que qualquer som que minha voz possa emitir...
Palavras, palavras, palavras.
Promessas, promessas, promessas.
Futuro, futuro, futuro.
Isso não é suficiente.
Nenhum tipo de manifestação é capaz de alcançar a dimensão do sentimento que, em vão, tento registrar. Por quê insistir?
Para quê insistir?
Então... eu sinto
Sinto e brinco
E brinco, e vivo
E vivo viva. Eu vivo.
Viva!
Pensei em cessar os registros, mas sei que não serei capaz. Sou do tipo que gosta de cultivar memórias e eternizar qualquer coisa que julgar necessária, então não resistirei à minha próxima inspiração. Por isso, escrevo um lembrete para minha consciência (que se faz tão presente na hora da cobrança): não é necessário registrar a palavra para garantir o sentimento.
Eu senti
Senti e sofri
E sofri, e vivi
E vivi viva. Eu vivi.
Viva!
Tendo ou não registrado.
Tendo ou não me recordado.
O amor em mim ficou guardado.
E o coração baterá sempre acelerado.
Sempre.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Frio
Queria sentir frio.
Assim, subitamente.
O cômodo onde me encontro é tão aconchegante! Suas cortinas enfeitadas por violetas e amarradas por laços brancos deixam um pedacinho da árvore ali de fora aparecer. A cama é confortável, o travesseiro daqueles bem fofinhos e sua fronha é um convite à minha cabeça. A colcha que deita naquela é rosa claro com uns leves traços de um rosa mais escuro, pura graça. A temperatura é amena, deliciosa, quase perfeita.
Ainda assim, queria o frio.
E o desejo a cada vez mais.
Engraçado como essa vontade consegue me distrair de tal atmosfera aconchegante. Ainda mais eu, que sempre clamei por fogo, ardência, calor... Rogo agora pelo frio! Seria isso uma vontade de fugir dos meus próprios princípios? Transformar os meus desejos apenas para que eu possa brincar de ser contradição?
De qualquer maneira, desejo frio.
E essa vontade fantasia minha mente.
Penso como seria se o termômetro marcasse uma temperatura mais baixa e tornasse o ambiente mais negativo. Há tempos não tremo até a espinha; se o fizesse, renasceria. Sentir arrepios e vontade de procurar um outro lugar faria com que eu deixasse o aconchego e buscasse algo novo... consequentemente, faria novas descobertas e nadaria em diferentes mares.
De águas geladas, quem sabe.
Alguns icebergs, com sorte.
E então eu atravessaria onda por onda, sem medo de naufrágios ou criaturas. Exploraria cada gotinha d'água que a mim molhasse e provaria cada uma que ousasse tocar meus lábios. Daria o sal mais sede à minha boca? Quisera eu viciar-me no gosto da aventura!
Eu então morreria de arrepios.
E o frio aqueceria minha alma.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
"Modanças"
Arrumando a mala para minha viagem, comecei a experimentar algumas roupas a fim de selecionar quais delas levaria. No meio de blusas, calças e vestidos, descobri uma quantidade relevante de peças velhas das quais nem me lembrava direito e decidi ver como ficariam em mim. Surpresa me senti quando algumas das roupas serviram melhor no dia presente do que na época em que as comprei, e a satisfação veio logo após: eu não havia engordado tanto. O peso viera com o tempo, claro, mas nada que me poupasse de entrar em minhas roupas antigas. Feliz e contente, tornei a separar os ítens que poria em minha mala e, enquanto analizava quantos sapatos conseguiria encaixar ali dentro, um pensamento me veio à cabeça: por quê?
Quero dizer, por que o fato de não ter engordado me agradava tanto? Caber em determinadas peças de roupa havia se tornado mais importante do que minha própria viagem em si. Eu estava absorvendo os padrões que a indústria da moda criara e julgava serem os ideais. Olhei então para minha mala e tudo o que vi foram ítens de catálogos das mais variadas marcas. Em um estalo súbito, percebi que se dissesse que todos haviam sido adquiridos em uma mesma loja, ninguém ousaria questionar, dada a padronização dos modelos que ali estavam. Lembrei do orgulho por mim sentido quando comentara com uma amiga que meu vestido havia sido trazido de Milão por minha tia. Penso agora por que raios isso era tão importante! Era uma bela peça, mas muito semelhante a uma adquirida no próprio Rio de Janeiro. Alguns extensos quilômetros de diferença não impediram que a confecção das roupas fosse similar. E eu ali, achando que um vestido vindo do exterior valorizaria mais a minha beleza do que um de minha própria cidade, quando, na verdade, nenhum dos dois me deixava mais bela do que quando eu sorria por motivos banais. Percebi que a vontade de pertencer estava fazendo com que a moda me impusesse os padrões que me indicavam a melhor maneira de me fazer bonita. Logo eu, que tanto criticara tal homogeinização e sempre fora a favor da valorização das diferenças.
Decidi então me desfazer de determinadas peças. Não que eu tenha saído doando todas minhas roupas e decidido me tornar a Eva do século XXI, mas levei algumas ao brechó e fiz belíssimas trocas. Descobri que não existe lugar melhor para diversificar um guarda roupa sem gastar muito dinheiro e adquiri peças vintage que deram um toque especial a ele. Não deixei de comprar saias de cintura alta ou óculos joaninha e acredito que serei conquistada por modinhas seguintes, mas adorei a experiência brecholística e a diversificação que isso trouxe ao meu estilo. Por isso, aconselho aos seguidores da Vogue que se abram à novidades não tão novas assim e, com isso, libertem-se da hipnose.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Diálogo com o tempo II
- Tempo! Tu mais uma vez!
- Incomodo, querida?
- De certo modo, sim... Por quê fazes isso comigo?
- Do que falas?
- Da sua imprecisão! De quê mais poderia falar?
- Definas imprecisão.
- Passas rápido quando a felicidade me contagia, mas és tão lento quando a tristeza é que me acompanha...
- Sinto muito, menina, mas a culpa não é minha.
- Como assim? És tu o responsável pelo cair da noite e o nascer do sol! Tu és aquele que controla o dia, a noite e os segundos que fazem com que ambos passem!
- De fato, sou o criador do noite e do dia... Mas é você quem decide a hora de dormir e acordar.
- Mas tenho que seguir suas indicações! Como posso ir contra o relógio? Estaria seguindo de modo contrário o ciclo e, assim, acabaria perdida em meio à minha própria busca.
- E o quê buscas exatamente?
- Bem... Não sei ao certo. Algo que me traga um sentimento próximo ao pertencer...
- Buscas então algo que faça com que te sintas viva?
- Isso! Um sentimento que me prove que a vida faz parte de mim e eu pertenço à ela!
- Entendo.
- E então?!
- Quê mais queres, querida?
- Como assim? E quanto à minha busca, tempo?
- Estou aqui.
- Sim, eu sei. Não vais me ajudar?
- Se buscas algo que faça com que sintas que estás viva, olhe para o relógio. Cada movimento do ponteiro é a prova concreta de que algo passa... A grande questão é que não enxergas o principal.
- E qual seria o principal, tempo?
- A vida é aquela que corre, não eu... Sou apenas o instrumento usado por alguns para justificar suas derrotas. Se em algum momento da vida você falhou, é porque era inexperiente, não teve tempo suficiente para se preparar, ou então gozou do excesso e se perdeu em meio ao ócio.
- Sinto muito, tempo! Nunca pensei por esse lado...
- Não te incomodes, ninguém parou para pensar. Aliás, ninguém nunca parou para nada. Assim como eu, vocês, concretização da carne, correrão até o dia de sua partida final.
- E caso eu escolha parar de correr?
- Não tens essa opção. Se escolher definitivamente que a corrida cessará, é porque ela havia de. Em hipótese nenhuma serás capaz de romper meu ciclo. Tudo ocorre em sua devida hora.
- Então estás me dizendo que nenhum poder tenho sob mim mesma? Que tudo que acontece comigo e ao meu redor é controlado por ti?
- De maneira nenhuma. Como disse, sou apenas um instrumento da vida. Ela é quem rege tudo aquilo que acontece.
- Isso significa que sou como um fantoche.
- Que dizes com isso?
- Quero dizer que minha história já tem um roteiro, personagens e todos somos apenas bonecos com os quais a vida monta sua peça?
- De certo modo... Mas és tu quem decide o rumo do espetáculo.
- Mas se estou amarrada às tuas rédeas, como posso gozar de liberdade para decidir o que vem pela frente?
- Não tens o poder de mudar o seu passado, muito menos de decidir teu futuro. Isso é coisa minha, sou eu quem controla o que foi e o que vem.
- Ratifico, pois, minha afirmativa. Estou presa às tuas decisões.
- Entendas, menina, e é a última vez que vou te explicar. És incapaz de controlar o tempo que foi e que vem, mas estás perfeitamente apta a tomar decisões que serão as responsáveis pelo rumo dos acontecimentos. Gozas de liberdade para fazer suas escolhas e eu apenas controlo o que acontece após elas. Reges teu presente, base da vida. Portanto, és dona de tua própria história.
- Então, além de personagem, sou diretora e roteirista de minha própria peça?
- Exato. A vida e eu somos apenas expectadores.
- E como faço para ser aplaudida por tais mestres?
- Querida, esta é uma pergunta complicada...
- Entendo. Peço que a descarte.
- E como poderia? Entenda que vivemos de inversos. A mais complicada das perguntas pode ser resolvida com a mais simples das respostas.
- Então, repito: como faço para receber aplausos ao fecharem as cortinas?
- Vivas.
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